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Como um grupo de jogadores lutou e sofreu por quase dez anos para revolucionar o Uruguai

Por Rafael Valente e Thiago Cara

Há mais de dez anos, Diego Lugano, Diego Godín, Diego Forlán, Edinson Cavani e Luis Suárez, entre outros ídolos da Celeste, vêm em uma batalha para revolucionar a Associação Uruguai de Futebol (AUF). No último 29 de agosto, a vitória --ou o primeiro passo para ela-- pode ser festejada.

Foi nessa data que a Fifa anunciou o início da intervenção na AUF, afastando lideranças que vinham se revezando no poder e nomeando um novo gestor até fevereiro de 2019.

Será Jair Bertoni, diretor de federações das Américas da Fifa, o responsável por gerir a entidade, ajustar o seu estatuto de acordo com as normas internacionais de compliance e organizar nova eleição.

 

“O programa de jogos e os torneios uruguaios não serão descontinuados nem interrompidos por causa da intervenção da Fifa. A questão desportiva não vai ser afetada”, assegurou o advogado uruguaio Fernando Sosa, especializado em direito esportivo, em entrevista aoESPN.com.br.

“A intervenção pode até durar menos tempo. Tudo dependerá de como a Fifa conseguirá levar a AUF para a pauta da própria Fifa, algo que está muito longe hoje. Havia uma cobrança desde 2005 para que o estatuto fosse atualizado. Agora haverá a colaboração dos clubes, dos clubes do interior, dos técnicos de futebol, do sindicato de jogadores, dos árbitros, enfim, todos vão ter o direito de participar e votar nas questões políticas”, continuou sobre a situação na entidade máxima de futebol no país.

A situação complicou-se mais às vésperas da eleição da AUF, que deveria ter ocorrido em 31 julho, mas foi adiada por sugestão da Conmebol. Tudo porque Wilmar Valdez, presidente e também candidato à reeleição, renunciou ao cargo e desistiu da disputa eleitoral devido ao desgaste público gerado pelo vazamento de um áudio de WhatsApp (cuja gravação o comprometia de várias formas).

 

Dois candidatos, Eduardo Abulafia e Arturo do Campo foram reprovados no teste de idoneidade da Conmebol. Por isso o pleito não pode ocorrer em 31 de julho.

Uma nova data foi marcada. A eleição deveria ter ocorrido em 21 de agosto. Novamente foi adiada. No dia seguinte, diante do caos, a Fifa anunciou que o único caminho era a intervenção.

Os fatos acima são uma pequena amostra da crise no futebol do país vizinho. Situação que já dura décadas e que só teve essa reviravolta pelo envolvimento de ídolos da Celeste – e astros do futebol mundial.

“Quem deu o primeiro pontapé para esse jogo virar, para essa atenção dada pela Fifa, foram eles. Eles jogaram o assunto internacionalmente. O sindicato teve o apoio deles. Eles chegaram fortes na Uefa, fortes com a nova diretoria da Fifa. Vieram com muita força nesse movimento. Deram condições para os outros jogadores do futebol local, os árbitros e as federações do interior viessem juntos”, disse Sosa.

Uma das cabeças dessa ação foi Diego Lugano, capitão da seleção em 86 jogos (recorde) e atualmente superintendente de relações institucionais do São Paulo.

Lugano coordenou e colocou sua imagem à prova para batalhar contra os interesses dos poderosos. Muitos podem ter se surpreendidos com a notícia da intervenção da Fifa, ele já sabia.

“Não foi nada surpreendente. Já faz muito tempo que o grupo de jogadores, principalmente da seleção e depois do futebol local, já tinham procurado a Conmebol e a Fifa com um pedido para ficarem ligados ao que acontecia no Uruguai. Institucionalmente, as coisas funcionam muito mal na AUF, em desacordo com os tempos modernos no futebol”, disse Lugano ao ESPN.com.br.
 

“Especificamente, nesses últimos meses, a polêmica ficou maior, com a eleição presidencial e a divulgação de áudios aparentemente vinculando o atual presidente com corrupção. Um dos candidatos, a Justiça investiga por extorsão. Um terceiro, que aparentemente era o nome da força empresarial que monopoliza o poder do futebol uruguaio, justamente a quem temos enfrentado, seria o único que ficava limpo, mas também não tinha unidade para cumprir a função. Muita bagunça”.

A bagunça pode ser entendida como a centralização do poder na AUF, voltado para os interesses empresariais, especialmente da Tenfield, detentora dos direitos televisivos do campeonato local.

Apesar de participarem das reuniões, muitos setores ficavam excluídos das votações. Caso dos clubes do interior, excluídos por força do estatuto. Enquanto outras equipes tinham um alto poder.

“Tem um time no Uruguai, o Tanque, que não se apresentou para jogar ano passado porque não pagou as dívidas. Desistiu. Mas na Assembleia, o voto desse time, por exemplo, vale 14 vezes mais que um clube da segunda divisão. Uma bagunça, que se somou a acordos econômicos dos ativos da federação, que prejudicam o futebol há muitos anos. Uma bagunça que tinha que acabar”, disse Lugano.

 

Lugano com a taça da Copa América de 2011, que foi disputada na Argentina (GettyImages)


UNIÃO CONTRA O PODER

“Mandamos uma carta à Fifa nas últimas semanas assinada pelos líderes da seleção, Godín, Suárez e Cavani, também pelos jogadores locais, do sindicato local, mais os árbitros do país, os representantes do futebol amador, que significa 90% do futebol no país. Um pedido para a Fifa vir e tentar colocar estatutos, base sólidas, normas, para pensar em um futuro melhor. Porque estava insustentável”.

 

PESO DOS JOGADORES DA SELEÇÃO

“A geração de 2010, 2014 e 2018... Todos se posicionaram. Cavani, Suárez, Forlán, Godín, Muslera, Gimenez, todos. Obviamente, existe um tipo de liderança, um pessoal mais ativo, mas é um pensamento em comum de todos jogadores e 99% do país, menos o poder empresarial, o poder político, que se beneficiam com isso. Nosso futebol, nosso povo, merece outra coisa”.

 

AMEAÇAS

“Sofri pressões de todo tipo. Não ser convocado foi a única que não, porque [o técnico Oscar] Tabárez e o grupo da seleção são uma ilha. O resto, tudo aconteceu. Somos uma geração muito unida por valores, princípios, o que nos leva, talvez, a sair de uma zona de conforto e enfrentar problemas com políticos, que trazem prejuízos a muita gente, no mais alto nível imaginável”.

 

Lugano puxa a fila antes de jogo do Uruguai na Copa do Mundo de 2010 (GettyImages)


ATRASO NO URUGUAI

“Nos últimos anos, na Libertadores e na Sul-Americana, os uruguaios não competem. Isso se deve ao fato de o futebol local ser muito atrasado, muito fraco e governado por um sistema velho, de pessoas pouco capacitadas. Um ciclo muito restrito de pessoas que quiseram ficar com o poder, o dinheiro, e só trouxeram coisas negativas. Enquanto o resto do continente crescia, o Uruguai diminuía”. “Até dois anos, times jogavam a primeira divisão nem sequer tinham conta bancária. É muito pior do que parece. Sentimos um pouco de vergonha, porque somos parte do futebol. Às vezes a seleção vai bem, fomos os melhores da América nas últimas Copas; em nível juvenil, fomos bem; então engana. Foi um milagre o que Tabárez fez. Um absoluto milagre”.

 

POR QUE NÃO É ASSIM NO BRASIL?

“Talvez você esteja sendo um pouco injusto. Quando o Bom Senso FC se uniu, foi espetacular. Tenho contato com eles, participo de muitas coisas que fazem, porque estou muito alinhado à ideia geral, de trazer melhor governança, o melhor futebol para todos. Eles enfrentaram o mesmo problema que tivemos no Uruguai, mexer com poderes econômicos, dirigentes, que contra-atacam”. “[Mas no Brasil foram raros os jogadores da seleção que se envolveram] A única diferença foi essa. Jogadores que tinham que ir em frente, eram os que estão na seleção. No Uruguai, tínhamos milhares de jogadores atrás de nós. Nós [da seleção] estávamos na frente porque era nossa responsabilidade. Sentíamos que era nossa obrigação. Se fossem apenas uma luta dos jogadores locais, eles perderiam e ficariam desempregados”.

Fonte: http://www.espn.com.br/

 

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